18 de outubro de 2014

AFINAL, QUANDO É QUE AS PESQUISAS ELEITORAIS ERRAM?



Por : Maurício Costa Romão



Após várias estimativas incorretas de intenção de votos no primeiro turno da eleição municipal de 2012, o que reavivou, pelo mesmo motivo, as críticas endereçadas aos institutos de pesquisa na eleição de 2010, o Ibope e o Datafolha, através de seus dirigentes técnicos, Márcia Cavallari e Mauro Paulino, em respectivo, deram exatamente a mesma justificativa para a ocorrência dos resultados diferentes dos registrados nas urnas. 

Os executivos tributaram tais disparidades a um fenômeno que se tem detectado recentemente nas eleições brasileiras: a paulatina mudança de comportamento do eleitor que, cada vez mais, posterga sua decisão de voto para os dias finais das eleições. 

De fato, como as pesquisas podem lidar com uma situação em que, por exemplo, 20% dos eleitores não declararam candidato no levantamento de véspera do pleito? Só se vai saber a destinação desses 20% de votos depois dos eleitores pressionarem a tecla “confirma” na urna eletrônica. Antes disso, mistério total.

Em face dessa volatilidade do voto, para a qual há farta evidência empírica, os mencionados dirigentes concluíram, uníssono, ser um equívoco dos críticos cotejar números de pesquisas de véspera com os percentuais das urnas e dizer que os institutos erraram. Em outras palavras, resultados fora da margem de erro não podem ser considerados erros das pesquisas.

Essa justificativa suscita, de pronto, a seguinte questão: quando é afinal que um instituto de pesquisa erra? Até agora tem sido consensual no meio técnico que estimativas fora da margem de erro são consideradas erros dos institutos. Mas se o intervalo de erro não serve mais como referência de desempenho, o que é que serve então?

Desse jeito, fica-se no seguinte comodismo técnico: prognósticos dentro da margem de erro, os institutos acertam, fora da margem, os institutos não erram. Corolário: os institutos nunca erram!

Terminado o primeiro turno de 2014, repetem-se outras tantas discrepâncias entre as estimativas de intenção de votos e a realidade das urnas. Nova saraivada de indignadas críticas se sucede, temperadas por inúmeras piadas que grassaram nas redes sociais. De novo, os dois especialistas foram compelidos a se pronunciar e o fizeram na mesma linha de 2012, culpando o modus agendi do eleitor por sua imprevisibilidade ao votar, desta feita, porém, adicionando outro ingrediente justificativo ao incômodo fenômeno.

A explicação complementar agora é a de que os levantamentos de véspera “não têm função de antecipar resultados”. “O objetivo da pesquisa é contar a história da eleição até sábado”. “O que se divulga representa sempre o momento para trás, não para frente”. “Nós mesmos, dos institutos, tratamos esses números divulgados na véspera como prognósticos, mas, na verdade eles são diagnósticos, refletem uma realidade que já passou”.

Como se não bastara o “nunca errar”, agora os dois dirigentes buscam, também, o conforto de uma escapatória interpretativa: promovem uma completa revisão conceitual do significado da pesquisa de intenção de votos. 

Estranho. Antes, a pesquisa era uma ferramenta estatística que, a partir de levantamentos sucessivos, fazia prognósticos, era usada como instrumento de predição, apontava tendências, comparava estimativas com os parâmetros das urnas. Olhava para frente.

Agora, é um mecanismo de diagnóstico e só olha para trás. 

Se a pesquisa só olha no retrovisor e “reflete uma realidade que já passou”, por que, então, os próprios institutos alardeiam em seus relatórios, a cada eleição, que acertaram noventa e tantos por cento dos resultados? Por que os seus sites continuam apresentando as pesquisas com dizeres do tipo: “Pesquisa aponta vitória de fulano”. “Cicrano dispara e deve ganhar no primeiro turno”, “Beltrano pode se eleito no domingo”, e por aí vai? Que olhar para trás é esse?

Desenhar a estratégia da contra crítica por aí é se enrolar num novelo de contradições e dar contribuição zero para minimizar os crescentes danos à imagem dos institutos de pesquisa. 

O caminho a ser pavimentado pelos institutos, ao contrário, é o de voltar às origens, ser o que sempre foram, reinstituindo o tradicional conceito preditivo da pesquisa e submetendo seus resultados numéricos ao crivo das urnas, na expectativa de que estejam circunscritos à amplitude da velha e boa margem de erro. Se alguns extrapolarem os limites da margem, paciência, é a fatalidade estatística aliada à imprevisibilidade comportamental do eleitor. No cômputo geral, contudo, os acertos serão, como sempre, imensamente maiores que os erros.

Antes de qualquer coisa, porém, um gesto de humildade: reconhecer que os institutos são limitados nas suas ferramentas técnicas para lidar com aumentos no grau de volatilidade do voto, em particular, e com as “ondas de opinião”, em geral.

Daí, então, empreender esforços técnicos no sentido de aprimorar a coleta e o tratamento das informações. Em especial, aprofundar estudos sobre a parcela de não-voto (brancos, nulos, indecisos), mediante refinamento de perguntas específicas nos questionários, cruzamentos, levantamentos qualitativos, etc.

Em assim agindo, os institutos certamente contarão com o generoso beneplácito daqueles que acompanham e aguardam ansiosamente seus levantamentos, pois eles, eleitores, em grande parte, compreendem, ao menos intuitivamente, que a pesquisa eleitoral não é feita para acertar resultados, mas para apontar tendências e formular predições.

E, finalmente, se deve dizer sem medo e sem subterfúgios que o errar é absolutamente normal, já que o erro em pesquisa eleitoral é inerente à sua própria concepção: a pesquisa lida com amostra que, por mais representativa que seja, sempre será uma amostra de uma dada população. 

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Maurício Costa Romão, Ph.D. em economia, é consultor, e autor, entre outros, do livro “Eleições e pesquisas eleitorais: desvendando a caixa preta”. Juruá Editora. mauricio-romao@uol.com.br, http://mauricioromao.blog.br.

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