26 de janeiro de 2015

Fordlândia: a história da cidade utópica que Henry Ford construiu na Amazônia

 


No começo do século XX, as linhas de produção de Henry Ford construiam carros a uma velocidade jamais vista. Todos aqueles carros precisavam de pneus, e na época a borracha ainda era derivada das seringueiras do Sudeste Asiático. Para manter a eficiência de sua produção sem depender dos asiáticos, Ford decidiu ter sua própria produção de látex, e para isso construiu uma cidade tipicamente americana em plena Amazônia, batizada de Fordlândia.

A história de Fordlândia começou em 1927, quando Henry Ford adquiriu um terreno de quase 15.000 km² às margens do Rio Tapajós, no Pará. Anos antes, o departamento de comércio dos EUA haviam feito um estudo de viabilidade de cultivo de seringueiras no Brasil com resultados positivos.


Sabendo disso o produtor rural Jorge Dumont Villares, conseguiu com o governador Dionísio Bentes uma concessão de uma grande porção de terra para cultivar seringueiras. Tudo de graça. Quando soube que Henry Ford procurava uma região para sua cidade no Brasil, Villares ofereceu suas terras a ele por um valor equivalente a quase R$ 3 milhões atualmente.

No ano seguinte ele enviou suprimentos e funcionários para criar uma típica cidade americana no local. Em pouco tempo a cidade ficou pronta, com escolas, eletricidade, saneamento, clube social/recreativo e um hospital (onde viria a ser feito o primeiro transplante de pele no Brasil). O empreendimento, como se diz hoje, tinha tudo para dar certo se não fossem dois graves problemas.


O ciclo da borracha no Brasil viveu seu auge entre 1879 e 1912 — quinze anos antes da compra da área por Ford —, e entrou em declínio depois que os britânicos levaram 70.000 sementes de seringueira da Amazônia para o Sudeste da Ásia e começaram a produzir látex com maior eficiência e produtividade devido às condições do solo.


Para deixar a situação ainda pior, Ford tentou impor a cultura americana de trabalho aos brasileiros, fornecendo uma alimentação tipicamente norte-americana, casas americanas, e os obrigava a usar crachás e a trabalhar sob um modelo ao qual não estavam habituados. Isso causou a insatisfação dos funcionários, que resultou em baixa produtividade e conflitos. O mais marcante deles aconteceu em 1930, quando os funcionários se revoltaram contra a dieta americana, que incluía espinafre e até hambúrgueres.


Os americanos não tinham conhecimento prático algum em botânica e, além de não conseguiram prever o fungo do mal-das-folhas, as seringueiras eram plantadas muito próximas entre si, o que as tornava um alvo fácil para pragas, que dizimaram as plantações. A Ford ainda tentou realocar as plantações em Belterra, onde foi construída uma segunda cidade, mas em 1945, com o surgimento da borracha sintética — feita com derivados de petróleo — o empreendimento já não havia mais razão de existir e foi cancelado pelo presidente da companhia, Henry Ford II.

O Governo Brasileiro indenizou a Ford em aproximadamente US$ 250.000, e ainda assumiu as dívidas trabalhistas com os trabalhadores. Em troca, recebeu seis escolas (quatro em Belterra e duas em Fordlândia); dois hospitais; estações de captação, tratamento e distribuição de água nas duas cidades; usinas de força; mais de 70 quilômetros de estradas; dois portos fluviais; estação de rádio e telefonia; duas mil casas para trabalhadores; trinta galpões; centros de análise de doenças e autópsias; duas unidades de beneficiamento de látex; vilas de casas para a administração; um departamento de pesquisa e análise de solo; e a plantação de 1.900.000 seringueiras em Fordlândia e 3.200.000 em Belterra.

Os detalhes desta história fantástica e do que aconteceu com Fordlândia depois do fracasso fordista são contados no excelente documentário Fordlândia, de Marinho Andrade e Daniel Augusto, que está disponível na íntegra no YouTube:

Fonte : http://www.flatout.com.br/

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